A defesa do título mundial da Argentina segue por um caminho repleto de emoções e viradas impossíveis. Neste domingo, em Kansas, a seleção de Lionel Scaloni mede forças com a Suíça nas quartas de final da Copa do Mundo de 2026, numa partida que coloca frente a frente o favorito dramático do torneio e a única equipe que ainda não foi superada em momento algum nesta edição - incluindo eliminatórias e fase de grupos.
O caminho argentino até aqui exigiu fôlego de sobra. Após uma vitória suada na prorrogação sobre Cabo Verde, a albiceleste protagonizou uma das maiores viradas da história recente do Mundial: estava perdendo por 2 a 0 para o Egito com apenas 12 minutos para o fim do tempo regulamentar, mas conseguiu buscar o 3 a 2. Foi a mais tardia recuperação de uma desvantagem de dois gols ou mais encerrada na vitória dentro dos 90 minutos na história da competição. É nesse contexto de superação constante que o mercado de futebol europeu também vive suas próprias reviravoltas - assim como Juanca Pineda deixa a Segunda RFEF para dar um salto inesperado na carreira, a Argentina parece encontrar na adversidade a sua motivação mais profunda.
Messi foi o personagem central, mais uma vez. O capitão deu o passe para o cabeceio de Cristian Romero aos 79 minutos, marcou o empate logo em seguida e assistiu ao gol do triunfo de Enzo Fernández nos acréscimos. No apito final, o camisa 10 não conseguiu conter as lágrimas - provavelmente uma mistura de alívio e consciência de que mais uma vez fez história. Aos 39 anos, Messi tornou-se o primeiro jogador a balançar as redes em seis jogos consecutivos na fase eliminatória de Copas do Mundo, além de estender seu próprio recorde para nove partidas de gol no torneio. Seus oito gols na edição de 2026 são os mais de qualquer jogador antes das quartas de final. Entre os sul-americanos, apenas Ademir, do Brasil, marcou mais em uma única Copa: nove, em 1950. Um pêssimo recorde também o acompanha, no entanto: Messi se tornou o único jogador da história a desperdiçar dois pênaltis na mesma edição do Mundial, após falhar contra a Áustria na fase de grupos e ter sua cobrança defendida por Mostafa Shobeir no primeiro tempo da partida contra o Egito.
Uma máquina de gols com falhas na blindagem
Com Messi, Lautaro Martínez e Julián Álvarez formando o trio ofensivo, a Argentina marca há 14 jogos consecutivos em Copas do Mundo - desde a derrota por 3 a 0 para a Croácia na fase de grupos de 2018. Mais impressionante ainda: em 11 desses jogos, a seleção balançou as redes ao menos duas vezes, igualando o recorde histórico do Uruguai, que também alcançou essa marca entre 1930 e 1954. Nessa sequência de 11 partidas, a Argentina contabiliza nove vitórias e dois empates, sua melhor invencibilidade na história do torneio.
A defesa, porém, preocupa Scaloni. Entre os oito classificados para as quartas, apenas a Espanha sofreu menos finalizações no alvo do que a Argentina, que recebeu nove. O problema está na conversão adversária: cinco desses nove chutes resultaram em gol, uma taxa de 56% de aproveitamento para os oponentes. Apenas as já eliminadas Uzbequistão (65%) e Tunísia (63%) sofreram gols de uma proporção maior de chutes a gol recebidos. Se a Suíça abrir vantagem no placar, a Argentina pode ser forçada a mais uma de suas remontadas agonizantes.
A Suíça, invicta e organizada, busca a primeira semifinal desde 1954
A seleção helvética chega ao encontro como a única equipe no torneio que não esteve em desvantagem em momento algum - considerando as seis partidas das eliminatórias e os cinco jogos até agora na fase final. Na última rodada, Murat Yakin manteve a Colômbia em 0 a 0 por 120 minutos e avançou nos pênaltis por 4 a 3, com Gregor Kobel sendo o herói com uma defesa decisiva. Será a primeira vez que a Suíça chegará às quartas de final de uma Copa do Mundo desde 1954.
A experiência do elenco suíço não deve ser subestimada. Ricardo Rodríguez - que terá a ingrata missão de marcar Messi - acumula 31 aparições em torneios de grande porte desde a Copa de 2014, superado entre os jogadores de linha europeus apenas por Harry Kane (33). Granit Xhaka é o jogador com mais passes que rompem linhas no terço final de campo nesta edição, com 50, e o segundo geral, com 75 - atrás apenas de Rodri (80). Breel Embolo esteve envolvido em 13 gols nos últimos 17 jogos pela seleção, somando 11 gols e duas assistências, embora tenha passado em branco diante da Colômbia, sem um único chute e apenas um toque na área adversária em 87 minutos em campo.
Histórico desfavorável, mas ambição sem limites
Os números históricos não favorecem a Suíça nesse confronto específico. Em sete encontros com a Argentina em todas as competições, os suíços nunca venceram: dois empates e cinco derrotas. A Argentina triunfou nos dois jogos de Copa do Mundo entre as seleções - 2 a 0 em 1966 e 1 a 0 em 2014, a última vez que se enfrentaram em qualquer competição. No recorte mais amplo, a Suíça venceu apenas uma das dez partidas que disputou contra adversários sul-americanos em Copas do Mundo, justamente sobre o Equador por 2 a 1 em 2014.
O supercomputador da Opta, com base em 25 mil simulações, aponta 57,1% de probabilidade de vitória argentina no tempo regulamentar, contra 18,7% para a Suíça e 24,2% de empate. No geral, a Argentina tem 69,4% de chances de seguir viva na defesa do título. A Suíça chega à semifinal em 30,6% dos cenários. Dito isso, a Argentina demonstrou neste Mundial que estatísticas e probabilidades são apenas ponto de partida - o que acontece em campo é outra história.