O treinador francês Philippe Troussier, que comandou a África do Sul na Copa do Mundo de 1998, afirmou que não é impossível imaginar uma seleção africana levantando a taça em 2026. Em entrevista ao Africa Foot, o técnico de 71 anos argumentou que o desempenho do continente na última edição do torneio - com nove das dez equipes africanas avançando à fase eliminatória - representa a consolidação de décadas de evolução no futebol africano. Para Troussier, o momento de dar o passo definitivo chegou.
O contexto é relevante: o futebol mundial vive uma fase de renovação de talentos em diversas frentes. Assim como jovens atacantes europeus emergem em ritmo acelerado - o caso de Lisa Baum, 19 anos e 30 gols, ilustra bem essa onda de renovação geracional -, o futebol africano também se apoia em uma nova safra de jogadores moldados em altos níveis de exigência nas principais ligas europeias. Troussier destacou que atletas de países como Marrocos, Senegal, Argélia, Gana, Costa do Marfim e República Democrática do Congo (RDC) enfrentam "exigências táticas, físicas e mentais extremamente elevadas semana após semana" ao atuar no Velho Continente, e que essa experiência acumulada distingue a geração atual de todas as anteriores.
Evolução histórica, não sorte
Troussier foi categórico ao recusar a narrativa de que os resultados africanos no último Mundial foram fruto de circunstâncias favoráveis. Para ele, nove seleções na fase de mata-mata não é coincidência - é o reflexo de um trabalho estrutural de longo prazo. O técnico que também orientou o Japão e o Marrocos ao longo de sua extensa carreira no continente africano enxerga no desempenho coletivo das nações africanas um indicador claro de maturidade competitiva. A única equipe que não avançou foi a África do Sul, eliminada por uma derrota por 1 a 0 para o Canadá - um resultado que, segundo o próprio Troussier, não apaga as qualidades demonstradas pelo time. "A África do Sul mostrou real qualidade técnica e uma grande capacidade de resiliência", declarou o treinador sobre sua antiga seleção.
Egito, África do Sul e o peso das ligas domésticas
Nem toda a força africana vem da Europa. Troussier também reconheceu o valor das ligas domésticas como motor de desenvolvimento. O Egito foi citado como exemplo de como um campeonato nacional competitivo pode formar jogadores preparados para o cenário internacional. "O Egito tem jogadores experientes, acostumados à pressão da opinião pública e das competições continentais", afirmou. A Premier League egípcia, uma das mais organizadas do continente, há anos exporta jogadores e forma um ambiente de alta exigência que, segundo o técnico, se traduz em resiliência nas grandes competições. O mesmo raciocínio se aplica à Premier Soccer League sul-africana, que nos últimos anos elevou seu nível técnico de forma consistente.
Costa do Marfim, Marrocos e Senegal: os favoritos de Troussier
Ao apontar os principais candidatos africanos ao título em 2026, Troussier elegeu Costa do Marfim, Marrocos e Senegal como as seleções com maior potencial. O Marrocos, semifinalista na Copa do Mundo de 2022 no Catar - melhor resultado da história africana em Mundiais -, confirmou sua solidez ao eliminar os Países Baixos e avançar às oitavas de final na última edição. O Senegal conta com uma geração talentosa liderada por nomes de peso na Europa. A Costa do Marfim, por sua vez, vem construindo uma identidade coletiva forte, com jogadores distribuídos pelas principais ligas do mundo. "Não acho que seja cedo demais para imaginar uma nação africana se tornando campeã mundial", concluiu Troussier - uma declaração que, vinda de alguém com sua trajetória no continente, carrega peso e credibilidade consideráveis.